INTRODUÇÃO
A educação/qualificação representa uma das áreas chave que condiciona significativamente o futuro de qualquer povo, país ou região. A realidade portuguesa, nesta área, demonstra fragilidades evidentes, justificativas da assunção de uma política educativa/formativa clara e enérgica. A nível nacional tem-se vindo a criar condições para que os défices de qualificação portuguesa possam vir a ser superados a curto/médio prazo.
Urge, a nível regional, assumir também este desafio e equacionar estruturadamente as melhores respostas que possam contribuir para a consecução deste desígnio nacional.
O Algarve, visto como uma região com características muito específicas, deve, desde cedo, definir um conjunto de linhas orientadoras nesta área que concorram para o aumento da qualidade de uma região que tem que se afirmar em termos concorrenciais pela excelência.
É preciso um “Projecto Educativo Regional”, a partir da definição de um conjunto de prioridades em torno das quais se possam mobilizar todos os agentes. Nesta conformidade torna-se cada vez mais necessário a recolha, o tratamento e a sistematização de informação que possa constituir suporte científico para as opções a tomar.
O presente texto, que pretende somente ser uma base de reflexão indutora de uma discussão alargada, surge como um desafio para uma futura definição de opções estruturadas e assumidas para a educação/qualificação do Algarve.
Encontra-se estruturado em duas grandes dimensões: áreas estratégicas de qualificação e objectivos prioritários que futuramente deverão ser alvo de elaboração de planos de acção específicos que conduzam à elaboração de um documento “Projecto Educativo” que represente, para determinado horizonte temporal, o “norte educativo” da região mais a sul de Portugal.
Áreas Estratégicas de Qualificação
Turismo
A qualificação nesta área deve ter por objectivo adensar o “cluster” Turismo, designadamente através de formações ligadas ao desporto, ao ambiente, à saúde e à terceira idade, a par das outras mais tradicionais. Simultaneamente deverá promover a formação de agentes na área da cultura e da animação turística que possam ser responsáveis pela promoção e execução de eventos culturais. Numa perspectiva de excelência neste domínio âncora do Algarve, deverá ser equacionada a formação de um número significativo de agentes que possa responder às exigências profissionais de todo o sector. Esta formação deve ter em conta os diferentes níveis de qualificações profissionais necessários, assim como, habilitações académicas de nível superior e pós superior que confiram um carácter impar a nível nacional e internacional à nossa região. A criação do Instituto de Formação Avançada do Turismo é essencial, articulando esforços entre empresas, Universidades, INFTUR e IEFP.
Saúde
A área de prestação de cuidados de saúde além de ser uma referência da qualidade de vida das populações, aparece também intimamente ligada a um novo conceito de qualidade turística cada vez mais exigente. Torna-se assim imprescindível, a par da diversificação da oferta formativa existente nesta área, a criação de um Curso de Medicina no Algarve, aproveitando as potencialidades das áreas já instaladas, como é o caso da Escola Superior de Saúde de Faro. Complementarmente deverão ser equacionadas formações que atribuam qualificações profissionais e competências tecnológicas que possam contribuir significativamente para o desenvolvimento deste sector.
Ambiente
As características ambientais de uma região representarão por si só um factor decisivo na qualidade de vida das populações e nas opções turísticas daqueles que nos visitam. O Algarve tem características ambientais únicas que urge defender, preservar, melhorar e utilizar de forma harmoniosa com o desenvolvimento da região. Assim, há que qualificar os recursos humanos tendo em vista cada vez mais a utilização das tecnologias ambientais (as energias renováveis, reciclagem de materiais, estações de tratamento …), a economia do ambiente, o urbanismo sustentado, o ordenamento do território e a utilização racional da água.
Mar
O Algarve pela extensão da sua costa e riqueza dos seus recursos pesqueiros e de aquacultura deve apostar na qualificação dos activos que trabalham no sector do mar. Essa qualificação deve ter por objectivos potenciar a inovação e a diversificação de produtos, aumentar a produtividade e garantir a sustentabilidade dos recursos no longo-prazo. A qualificação nesta área deve considerar duas vertentes: a requalificação dos actuais activos, através da formação contínua e a formação de novos profissionais. Com o objectivo de se atrair as camadas mais jovens, que encaram as profissões ligadas ao mar como muito tradicionais, a formação deverá basear-se na utilização de novas tecnologias de detecção, exploração e produção de recursos marinhos.
Agricultura e Desenvolvimento Rural
O modelo agrícola europeu está em profunda mudança, valorizando-se a sua multifuncionalidade, quer no domínio da produção de bens transacionáveis (alimentos e produtos energéticos), quer do ponto de vista de bens públicos (nomeadamente, agro-ambientais e eco-rurais que têm a ver com a preservação do património natural, a biodiversidade e a gestão do território). Desenvolver o interior do Algarve passa por cruzar políticas de produção, de ambiente e ordenamento do território numa perspectiva de desenvolvimento sustentável. Este novo paradigma exige uma formação mais exigente do ponto de vista técnico de todos os agentes, aos diferentes níveis, incorporando além da formação agronómica, a componente ambiental e do ordenamento do território.
Acção Social
A vida quotidiana cada vez mais absorvente implica uma ocupação plena dos adultos e limita as suas disponibilidades para um acompanhamento mais efectivo das crianças e dos idosos. Esta nova realidade determina a existência de estruturas sociais de apoio compensatórias destas fragilidades dos núcleos familiares. É neste contexto, e mais uma vez tendo em conta o conceito de qualidade de vida, que é necessário equacionar a (re)qualificação de profissionais quer ao nível da ocupação de tempos livres quer ao nível de apoio à família e à comunidade designadamente à terceira idade.
Serviços às Empresas e Inovação
Sendo a região do Algarve uma zona de serviços por excelência onde se pretende que as empresas desenvolvam serviços de qualidade, é fundamental que a formação em áreas tão distintas como economia, contabilidade, gestão, comunicações e comércio, se processe tendo em vista a qualificação de profissionais a diferentes níveis, que respondam aos desafios da modernidade, designadamente ao nível da inovação e da especialização tecnológica avançada.
Cultura, património e artes
No Algarve deve-se sublinhar o interesse da formação de agentes e de públicos no domínio da cultura, do património cultural e das artes do espectáculo. Assim, em termos regionais, as escolas secundárias, em sintonia com as instituições de ensino superior e no contexto do movimento associativo local e regional, deveriam, em conjunto com os organismos de educação e cultura regionais promover o desenvolvimento cultural, através do incentivo à leitura - base de um sólido desenvolvimento cultural, da educação pelo e para o património cultural, material e imaterial - garantindo a abertura de novas ofertas no desenvolvimento turístico e económico. O turismo é uma indústria, é um serviço, mas é também uma oportunidade de confronto e de encontro de culturas, numa região marcada por um forte cosmopolitismo.
A via da qualificação do Algarve terá de passar pela afirmação de uma identidade cultural, que permita que o turismo seja também um meio de irradiação e transmissão de conhecimentos, de contacto intercultural com a nossa cultura, com a nossa arte, a nossa gastronomia e o nosso artesanato. O turismo, como indústria e como actividade humana deverá igualmente apresentar uma forte dimensão cultural. A afirmação da nossa singular dimensão cultural necessita de pessoas cuja maior qualificação é imprescindível, para a realização de manifestações e acontecimentos artísticos e para consolidar uma oferta cultural que se encontra, reconheçamos, já em franco desenvolvimento.
Objectivos Prioritários
Promover a dignificação social da educação/qualificação
Sensibilizar de forma activa as famílias para a importância da qualificação profissional dos seus educandos como pressuposto fundamental de sucesso em termos profissionais.
Assumir como patamar mínimo de formação o Ensino Secundário.
Potenciar o ensino de dupla certificação de forma a cumprir as metas nacionais definidas.
Valorizar as habilitações académicas/qualificações por parte das empresas para efeitos de contratação e progressão dos seus quadros, tendo em vista a qualidade do serviço.
Incentivar o desenvolvimento de metodologias de intervenção de consultoria-formação-acção que promovam a inovação organizacional e tecnológica do tecido empresarial.
Proporcionar ambientes formativos facilitadores de uma integração plena das comunidades imigrantes.
Definir prioridades educativas a nível municipal em conjugação com as prioridades regionais.
No respeito das competências e dos diferentes graus de autonomia dos Municípios, dos Estabelecimentos de Ensino, dos Institutos e da Universidade, definir ao nível dos Conselhos Municipais de Educação as respectivas prioridades educativas tendo em conta a especificidade dos problemas detectados.
Articular e adequar a oferta formativa
Em face de uma realidade na qual a diversidade da oferta formativa é cada vez mais necessária e da multiplicidade de agentes que a promovem, torna-se essencial a sua articulação sendo a Direcção Regional de Educação do Algarve a entidade mais responsável para esse efeito. Esta articulação, que mais uma vez tem que ser realizada com respeito pelas autonomias dos diferentes intervenientes, deve considerar a necessidade da existência de um maior número de jovens com cursos qualificantes de forma a se atingirem as metas propostas a nível nacional, e consequente organização de cursos com nível de qualificação superior.
Ajustar a oferta formativa tendo em conta a sua localização e as necessidades de cada Concelho.
Informar e sensibilizar para uma nova realidade de ofertas educativas mais adaptadas às suas competências e à realidade económico/social da região.
Definir e aplicar mecanismos reguladores relativos ao número de alunos /curso.
Fomentar parcerias entre os agentes de educação/formação assentes na partilha de recursos.
Incrementar a qualificação dos activos
Aumentar o número de centros R.V.C.C.
Implementar um maior número de Cursos de Educação e Formação de Adultos.
Proporcionar condições formativas que estimulem a aprendizagem ao longo da vida.
Flexibilizar a estrutura dos cursos profissionalizantes adaptando-os à realidade da empregabilidade sazonal.
Melhorar a qualidade do sucesso educativo
Promover a qualidade do acto educativo tendo em vista a obtenção da melhoria da média de ingresso no ensino superior dos alunos do Algarve.
Aumentar o índice de empregabilidade nas respectivas áreas de formação dos alunos habilitados/qualificados para o efeito.
Diminuir em 10% ao ano as taxas de insucesso e abandono escolares nos vários níveis de ensino nos próximos cinco anos.
Adaptar as estruturas físicas educativas tendo em vista a qualidade e a especificidade dos cursos a ministrar.
Proposta:
A criação de um Conselho Regional para a Educação e Qualificação articulando Direcção Regional de Educação, Instituto de Emprego e Formação Profissional, Instituto de Formação Turística, Instituições de Ensino Superior do Algarve e outros agentes que participam no processo educativo e formativo (Associações de Pais, Associações de Estudantes, Associações de Municípios e Freguesias, Associações Empresariais, Sindicatos…) é o primeiro passo para a definição estratégica de um “Projecto Educativo para o Algarve”, a partir dos objectivos estratégicos aqui enunciados.
A aposta do QREN deverá incidir de forma expressiva nos conteúdos. Palavra mágica, mas que permite avançar para além das infra-estruturas. Conteúdos da matemática, do português, do mar, do ambiente, ajustados às exigências do 3º ciclo do básico e do secundário, oferecidos através da Internet, como jogos, como campeonatos, como intercâmbios com outras escolas bem seleccionadas em países europeus, com leilões de viagens, de prémios de percursos científicos ou de estágios colectivos em instituições de referência. Com concursos literários sobre o ambiente, o mar e a energia. Com a criação de conteúdos experimentais associados à energia (máquinas, experiências, ensaios, misturados com visitas de estudo ao ciência viva e a outras instalações mais tecnológicas). Estes aspectos relacionados com o conteúdo das ciências e das letras (língua portuguesa), com expressão pública em jornais, seminários, debates, etc. permitiria uma maior articulação entre escolas básicas e secundárias e universidades para definir e executar projectos.
Os conteúdos deveriam, porém, estar ajustados aos programas dos respectivos ciclos, pelo que a participação dos docentes desses níveis de ensino seria fundamental.
Coordenação: a estudar, mas um Gabinete de Ciência, com estrutura ligeira e mista poderia dar corpo a uma solução.
Coordenação: Prof. Luis Correia